sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Poema de desamor






Desmama-te desanca-te desbunda-te

Não se pode morar nos olhos de um gato


Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato


Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato


Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato


Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato


Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato


Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Alexandre O'Neill




Pois não.

O rio da posse

"Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. "

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Assim que entregamos a alma, tudo continua com mortal certeza, mesmo no meio do caos. Desde o princípio, jamais passou de outra coisa que não o caos: um fluido que me envolvia, que eu respirava pelas guelras. Nos substratos, onde a lua brilhava constante e opaca, era liso e fecundante; acima, confusa vozearia e discórdia. Em tudo eu via logo um oposto, uma contradição, e entre o real e irreal, a ironia, o paradoxo. Eu era o meu pior inimigo. Não desejava fazer nada que fosse melhor não fazer. Mesmo em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada se provaria, consubstanciaria, somaria ou subtrairia pela continuação de uma existência que eu não pedira. Todos á minha volta eram um fracasso, ou, se não, ridículos. Sobretudo os bem-sucedidos. Estes me entediavam até as lágrimas. Eu era excessivamente compreensivo, mas não por simpatia. Era uma qualidade totalmente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples visão da infelicidade humana. Jamais ajudei a quem quer que fosse esperando que isso fizesse algum bem; ajudava porque não podia agir de outro modo. Parecia-me fútil querer mudar a condição das coisas; convencera-me de que nada se alteraria, a não ser uma mudança de opinião, e quem conseguiria mudar opiniões dos homens? 

in Tropico de Capricornio, Henry Miller.