domingo, 30 de dezembro de 2012

Lembro-me bem do seu olhar.


Lembro-me bem do seu olhar

Ele atravessa ainda a minha alma,

Como um risco de fogo na noite.

Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona. Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo,
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Feliz Natal

Em nome dos que choram,

Dos que sofrem,

Dos que acendem na noite o facho da revolta

E que de noite morrem,

Com a esperança nos olhos e arames em volta.

Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas,

Em nome dos que rezam em silêncio

E falam em silêncio

E estendem em silêncio as duas mãos aflitas,

Em nome dos que pedem em segredo

A esmola que os humilha e os destrói

E devoram as lágrimas e o medo

Quando a fome lhes dói.

Em nome dos que dormem ao relento

Numa cama de chuva com lençóis de vento

O sono da miséria, terrível e profundo,

Em nome dos teus filhos que esqueceste,

Filho de Deus que nunca mais nasceste,

Volta outra vez ao mundo! 


José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Papeis de Gabiru











"10 de fevereiro



Ella foi uma flor que se aspira e se deita fóra – quasi sem reparar – scismando na imortalidade da alma.

Se eu pudesse cinamatographar a vida e a morte d’uma flor, cinamatographava a sua vida.

Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.

Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contel-a. Habituou-se a queixar-se á grande nodoa da humidade da parede.
Entre mim e ella interpôs-se o sonho.
A ternura também cansa. Deixem-me! Deixem-me sonhar! O principal para mim foi a queixa que ninguém ouviu no mundo; foi o que os seus olhos verdes d’espanto decifraram n’aquelle arabesco da parede. Podes por ventura conceber isto? Uma dor que não deixa vestígio, um sonho ignorado que não deixa vestígio, que passa no mundo e não deixa vestígios – a dor despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a chorar?

(...)
Os remorsos são inúteis. Um passo na vida é sempre irremediável: não há forças humanas que o possam apagar. "

Raul Brandão


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Poema de desamor






Desmama-te desanca-te desbunda-te

Não se pode morar nos olhos de um gato


Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato


Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato


Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato


Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato


Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato


Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Alexandre O'Neill




Pois não.

O rio da posse

"Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. "

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Assim que entregamos a alma, tudo continua com mortal certeza, mesmo no meio do caos. Desde o princípio, jamais passou de outra coisa que não o caos: um fluido que me envolvia, que eu respirava pelas guelras. Nos substratos, onde a lua brilhava constante e opaca, era liso e fecundante; acima, confusa vozearia e discórdia. Em tudo eu via logo um oposto, uma contradição, e entre o real e irreal, a ironia, o paradoxo. Eu era o meu pior inimigo. Não desejava fazer nada que fosse melhor não fazer. Mesmo em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada se provaria, consubstanciaria, somaria ou subtrairia pela continuação de uma existência que eu não pedira. Todos á minha volta eram um fracasso, ou, se não, ridículos. Sobretudo os bem-sucedidos. Estes me entediavam até as lágrimas. Eu era excessivamente compreensivo, mas não por simpatia. Era uma qualidade totalmente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples visão da infelicidade humana. Jamais ajudei a quem quer que fosse esperando que isso fizesse algum bem; ajudava porque não podia agir de outro modo. Parecia-me fútil querer mudar a condição das coisas; convencera-me de que nada se alteraria, a não ser uma mudança de opinião, e quem conseguiria mudar opiniões dos homens? 

in Tropico de Capricornio, Henry Miller.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

O que é.



É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor
É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

Erich Fried

sábado, 3 de março de 2012

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos

Clarice Lispector