Sentada num jardim de ervas secas com mais beatas que flores, completa a minha paisagem um homem que procura jantar no lixo dos outros, à minha direita estão duas velhas cuja conversa vasculha o lixo da vida dos outros, e mais ao fundo brincam quatro meninos a qualquer coisa fácil que um dia hão de desaprender. Passa uma rapariga a correr, corre por cima da vida que a atropela, e senta-se agora à minha frente um futuro ex-casal, que jovens e eternos sugam os lábios um do outro com a mesma vontade com que um dia se hão de cuspir. Aproxima-se do homem no lixo um cão magro que é de ninguém, que é de todos os que o chamam, quase como a mulher magra na rua mais escura para lá do fim do jardim, que é de ninguém. É de todos os que a pagam.
Na paragem de autocarro meia dúzia de autistas esperam um autocarro cheio, que vem com a brisa lisboeta, a fragância de quatro horas de sono e vinte de trabalho.
Senta-se ao meu lado uma senhora muito velhinha com uma boina vermelha na cabeça, e alerta-me para os malefícios do tabaco. E eu reparo nos seus olhos imensos como as luzes da cidade e perco-me neles como no jardim abandonado. E pergunto-me quando é que perdemos tanto que só nos resta o lixo dos outros, quando é que o encanto se torna ridículo, quando é que a vida nos ganha a corrida, quando é que cuspimos no prato que comemos, na cama que amámos, quando é que precisamos de falar de alguém para falar com alguém. Quando é que nos tornamos no cão de ninguém, vendidos a um pouco de afeto, autistas como as luzes da cidade que acendem, mas não iluminam.
- Não fume menina, que é tão nova e faz tanto mal.
-É verdade minha senhora, é verdade, boa noite.
-Boa noite, menina.
-É verdade minha senhora, é verdade, boa noite.
-Boa noite, menina.
Apaguei o cigarro, corri para a paragem. Chegou o autocarro.
Apaguei!