quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece

que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz

se quando vi o rapaz vi as estrelas

     

Adília Lopes

sábado, 8 de janeiro de 2011

Oito e meia na Praça do Chile

Cumprimento a noite que cai e as luzes da cidade acendem-se sintonizadas com e o meu cigarro.
Sentada num jardim de ervas secas com mais beatas que flores, completa a minha paisagem um homem que procura jantar no lixo dos outros, à minha direita estão duas velhas cuja conversa vasculha o lixo da vida dos outros, e mais ao fundo brincam quatro meninos a qualquer coisa  fácil que um dia hão de desaprender. Passa uma rapariga a correr, corre por cima da vida que a atropela, e senta-se agora à minha frente um  futuro ex-casal, que jovens e eternos sugam os lábios um do outro com a mesma vontade com que um dia se hão de cuspir. Aproxima-se do homem no lixo um cão magro que é de ninguém, que é de todos os que o chamam, quase como a mulher magra na rua mais escura para lá do fim do jardim, que é de ninguém. É de todos os que a pagam. 
Na paragem de autocarro meia dúzia de autistas esperam um autocarro cheio, que vem com a brisa lisboeta, a fragância de quatro horas de sono e vinte de trabalho. 
Senta-se ao meu lado uma senhora muito velhinha com uma boina vermelha na cabeça, e alerta-me para os malefícios do tabaco. E eu reparo nos seus olhos imensos como as luzes da cidade e perco-me neles como no jardim abandonado. E pergunto-me quando é que perdemos tanto que só nos resta o lixo dos outros, quando é que o encanto se torna ridículo, quando é que a vida nos ganha a corrida, quando é que cuspimos no prato que comemos, na cama que amámos, quando é que precisamos de falar de alguém para falar com alguém. Quando é que nos tornamos no cão de ninguém, vendidos a um pouco de afeto, autistas como as luzes da cidade que acendem, mas não iluminam.
- Não fume menina, que é tão nova e faz tanto mal.
-É verdade minha senhora, é verdade, boa noite.
-Boa noite, menina.
Apaguei o cigarro, corri para a paragem. Chegou o autocarro.
Apaguei!