E as incessantes oscilações do meu interior barómetro ao longo desses dez dias: saber que nunca hei-de esquecê-la; desejar vir a esquecê-la; recear vir a esquecê-la; ter a certeza de que a esquecerei e de que não a esquecerei.
David Mourão-Ferreira
terça-feira, 23 de abril de 2013
é verdade que se um homem misturar absinto com realidade fica com uma realidade melhor, mas também é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior.
Muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida - disse o senhor Henri
... nunca misturei absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto.
Gonçalo M. Tavares
Muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida - disse o senhor Henri
... nunca misturei absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto.
Gonçalo M. Tavares
esperei por ti em todos os lugares errados
- a quem pedir agora explicações?
viver diziam-me era assim e não havia
mistério nenhum nisso apenas
um roteiro obscuro estabelecido
entre o que tem de acontecer e aquilo
que não acontece nunca
e diziam-me ainda ninguém pode
com justiça reclamar
o que há tantos anos abandonou
num sombrio patamar de prédio suburbano
perdemo-nos então
por pensamentos palavras actos e omissões
e todas as palavras recuaram por infinitos precipícios
sem reconhecerem o som da nossa voz
nem o eco das noites em que todas
nos tinham pertencido
num sombrio patamar de prédio suburbano
Alice Vieira
in Dois corpos tombando na água
- a quem pedir agora explicações?
viver diziam-me era assim e não havia
mistério nenhum nisso apenas
um roteiro obscuro estabelecido
entre o que tem de acontecer e aquilo
que não acontece nunca
e diziam-me ainda ninguém pode
com justiça reclamar
o que há tantos anos abandonou
num sombrio patamar de prédio suburbano
perdemo-nos então
por pensamentos palavras actos e omissões
e todas as palavras recuaram por infinitos precipícios
sem reconhecerem o som da nossa voz
nem o eco das noites em que todas
nos tinham pertencido
num sombrio patamar de prédio suburbano
Alice Vieira
in Dois corpos tombando na água
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
José de Almada Negreiros
in A invenção do dia claro
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