"10 de fevereiro
Ella foi uma flor que se aspira e se deita fóra – quasi sem reparar – scismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinamatographar a vida e a morte d’uma flor, cinamatographava a sua vida.
Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contel-a. Habituou-se a queixar-se á grande nodoa da humidade da parede.
Entre mim e ella interpôs-se o sonho.
A ternura também cansa. Deixem-me! Deixem-me sonhar! O principal para mim foi a queixa que ninguém ouviu no mundo; foi o que os seus olhos verdes d’espanto decifraram n’aquelle arabesco da parede. Podes por ventura conceber isto? Uma dor que não deixa vestígio, um sonho ignorado que não deixa vestígio, que passa no mundo e não deixa vestígios – a dor despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a chorar?
(...)
Os remorsos são inúteis. Um passo na vida é sempre irremediável: não há forças humanas que o possam apagar. "
Raul Brandão
